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O escritor joca reiners terron* passou mais de 30 anos sem abrir um único presente. Ele tem uma regra para chegar "serelepe" aos 40

EU SEI, qualquer pessoa poderia contar sua vida por meio das festas de aniversário. Não há originalidade alguma nessa idéia, deve até ter sido usada em algum especial da TV. O que você não sabe, porém, é que os meus aniversários foram extraordinários, e a obrigação de se comemorar aquilo que com o passar dos anos todos gostaríamos de esquecer nunca aconteceu comigo. A verdade é que nunca tive em minha vida um aniversário igual ao outro.

Sim, porque depois do trigésimo aniversário a vida se torna uma rotina inescapável. Um ano atrás do outro, assim como um credor atrás do outro na fila do banco, feito um carro atrás de outro carro no engarrafamento. A vida acaba perdendo todo o seu mistério, compreende? Bem, não exatamente todo, mas aprendemos que uma festinha de aniversário há de nos esperar no próximo ano, e que aquela luz no fim do túnel é provavelmente apenas a chama de mais uma vela acesa. Ou de muitas.

A arte de chegar serelepe aos 40 anos se resume em nunca repetir festas de aniversário. Iniciei essa tática ainda na infância, inspirado por um tio. Meu tio Tininho era daqueles psiquiatras que são mais loucos que seus pacientes. Você deve conhecer algum psiquiatra desse tipo, não? Pois bem, quando completei 7 anos esse tio me presenteou com um Ferrorama, o presente que todo garoto de minha geração gostaria de ganhar. Meu tio, no entanto, depois de aparecer quando o guaraná já estava quente, não deixou que eu abrisse o presente. Ele mesmo se encarregou disso, e também de "testar" os trenzinhos e beber whisky a noite toda, enquanto em minha cama eu tinha pesadelos com os piuííís medonhos vindos da sala de casa. Na manhã seguinte, os trenzinhos estavam quebrados. Nem cheguei a vê-los funcionando.

     
 

Leia na íntegra a crônica de Joca Reiners Terron na edição impressa da Revista V número 25