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Parede de som, passos de michael jackson. O escritor joão paulo cuenca é nosso enviado à balada de madureira. Ele conta o que viu

Quando se fala em Madureira e Oswaldo Cruz, a primeira coisa que vem à cabeça é a tradição do Morro da Serrinha, sua linhagem de compositores e escolas de samba como Império Serrano e Portela. Mas esse bairro musical não carrega apenas as cores e a cadência da "voz do morro": uma nova tradição se enraíza no asfalto. Na verdade, entre duas camadas de asfalto, sob o Viaduto Negrão de Lima, onde há 17 anos o Projeto Rio Charme (ex-"Charme na Rua"), dedica-se a organizar bailes e divulgar a cultura charmeira.

Num sábado à noite, a viagem da Lapa, no centro do Rio, até o baile do viaduto é de aproximadamente 40 minutos de carro. Depois do Maracanã, o caminho é todo ao largo da linha de trem. Passamos pelas adormecidas estações da Mangueira, São Francisco Xavier, Riachuelo, Sampaio, Engenho Novo, Méier, Engenho de Dentro, Piedade, Quintino, Cascadura e, finalmente, Madureira. Se, durante o dia, a via é engarrafada (a viagem pode demorar o triplo do tempo) e cheia de gente entrando e saindo das estações, às 11 da noite a Zona Norte é uma sucessão de esquinas vazias e ruas sem iluminação. Lentamente ultrapassamos um carro da polícia com fuzis apontando para fora - e encontro medo nos arregalados olhos dos PMs.

Em Madureira, são quinze para meia-noite e o baile ainda não encheu. Numa praça, do outro lado da rua, o pessoal esquenta tomando caldos e esfria bebendo cerveja de garrafa. A música que rola é, claro, charme, uma mistura de ritmos da black music internacional: soul, r&b e, hoje em dia, hip-hop. O termo foi cunhado pelo DJ Corello por causa do estilo de dança que caracteriza desde a década de 1970 até os bailes black no Rio, sob os graves sempre melódicos e cadenciados paredões de caixas de som.

     
 

Leia na íntegra a crônica de João Paulo Cuenca na edição impressa da Revista V número 25