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Ao contrário do que possa parecer, Ruy Castro não é um ser nostálgico. Apenas não tem culpa de ter vivido intensamente uma fatia fabulosa de um século documentado à exaustão

Entrar no confortável apartamento de Ruy Castro, no Leblon, é como abrir um de seus livros. A começar pela música ambiente, uma delicada bossa nova que toma conta do ar sem incomodá-lo. Só de bossa nova, por sinal, há uma prateleira forrada com cerca de quatro mil CDs. Mas não venha com essa história de nostalgia para cima do escritor à beira dos sessenta anos. Sua resposta pode ser como o clássico de Tom Jobim e título de um de seus livros: Chega de saudade! Ruy está muito bem vivendo nos dias de hoje, embora seja um fã incondicional do século XX e de tudo que ele legou para a humanidade em matéria de música, cinema e literatura, as especialidades do jornalista.

Os livros de Ruy costumavam ser aguardados como os ? lmes de Woody Allen: neles, você tem a garantia de encontrar graça, sensibilidade e elegância. Ou seja, diversão garantida. Tempestade de ritmos, a última obra de Ruy, tem a vantagem de oferecer uma espécie de história de quarenta anos de jornalismo de um dos mais respeitados repórteres de Cultura que o brasileiro tem tido a sorte de ler.

Um homem naturalmente chegado a uma idiossincrasia. Cinema, por exemplo, ele só consegue gostar daquele produzido até o começo dos anos 1980. Mas conhece tudo. Em outra ocasião, passamos o tempo de um cafezinho falando sobre um clássico de terror infantil chamado Os cinco mil dedos do dr. T, dos anos 1950.

Para Ruy Castro, o maior do cantor do século (o século XX, aquele que importa), ainda é Bing Crosby. Está escrito em Tempestade de ritmos, a? rmação que ele faz questão de frisar. E o maior cantor brasileiro de todos os tempos? Orlando Silva, "mas isso eu também já escrevi".

Nascido em Caratinga, Minas Gerais, por acaso ("Só os paulistas gostam de saber a cidade de onde veio o sujeito"), Ruy insiste que foi concebido na Lapa, onde seu pai morou muitos anos. Sua grande paixão é o bairro, renascido, segundo ele, graças à boa vontade da iniciativa privada. E, na rabeira da ressurreição da Lapa, veio o samba, praticado por jovens músicos talentosos, e mais popular ainda do que nos tempos de Madame Satã. "Madame Satã? Este foi mais famoso nas entrevistas do Pasquim do que na vida real." Palavra de um legítimo carioca que, só por acidente, não nasceu nas curvas dos eternos Arcos da Lapa.

     
 

Leia a entrevista completa com Ruy Castro na edição impressa da Revista V número 25.